Será a caligrafia de Irene Lisboa, a mesma que usava pseudónimos masculinos para fazer triunfar a sua escrita feminina num mundo em que só os homens pareciam triunfar. No caso assina João Falco. Encontrei-o aqui.
quinta-feira, 19 de Novembro de 2009
quinta-feira, 29 de Outubro de 2009
Contarelos
A capa é inocente. «Irene escreveu e Ilda ilustrou», «para a gente nova», acrescenta a folha de guarda. O texto é seu, as ilustrações da sua colega e amiga, professora também, Ilda Moreira. Sabe-se mais sobre ela enquanto artista, aqui, porque há pessoas dedicadas e generosas.
Permito-me citar: «Entre os livros com ilustrações suas contam-se: - 13 Contarelos, escrito por Irene Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1926. - Vida escolar de Crianças de Cinco Anos e Meio a Sete, (na Revista Escolar) Abril de 1926. - Modernas tendências da educação, escrito por Irene Lisboa, Edições Cosmos, 1942. - A Vidinha da Lita, escrito por Irene Lisboa, 1ª ed. Coimbra: Atlântida, 1971. - Lisboa [ Visual gráfico : [vista da rua de São Bernardo, ca 1942], Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 1993. - Ilustração para uma versão não publicada do conto O entrudo de Carnaval, escrito por Irene Lisboa, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 1993».
O livro é de um formato amigável, em oitavo, papel muito pobre que hoje mal resiste ao tempo. Impresso na tipografia da Escola Normal Primária, edição das autoras, distribuído pela Livraria Sá da Costa, a mesma que hoje vende, com a tristeza do que está moribundo, os restos que ainda sobram.
sábado, 21 de Junho de 2008
A minha Adelina
Lembrei-me disso este fim de tarde tarde, desses críticos enfastiados, ausentes dos lugares «onde a vida varie», fruto da clausura insolente e da alienação noctívaga. Talvez por ter almoçado sardinhas no senhor Manuel e porque comecei faz pouco o meu jantar a comer rodelas de ananás que a minha Adelina, que se chama outro nome vindo dos tempos medievais, me deixou ficar, dizendo com aquele modo bonito de dizer: «sabe o senhor José António que comer ananás faz as pessoas felizes? Tem um produto que eu não lembro o nome». «Não faz mal», respondi eu então, enquanto revia provas de um livro, «desde que me faça feliz».
quarta-feira, 4 de Junho de 2008
O burro velho
O comboio partia às 11:47 de Campanhã e eu ainda tinha de apanhar a ligação em São Bento. Vinha do Tribunal, de um julgamento que não houve, ofegante a subir a calçada. Senti-a, por ali, tentadora, e ei-la de súbito: a livraria das livrarias, a Chaminé da Mota.
Contava os minutos, arriscava perder o comboio, mas o desejo era mais forte.
O que queria? Nem sabia. Tinha querido entrar e estava ali. «Procura algo?», perguntou-me, amável, o dono. Nem sei como surgiu, mas ripostei: «Irene Lisboa!».
Estavam lá em baixo, as mulheres escritoras, todas juntas, em gineceu literário.
Enervado com a pressa, tartamudeando o «já tenho quase tudo dela», acrescentei, sem ser necessário um «deram-me agora mais uns quantos», e com o empregado em expectativa, deitei a mão a um «Queres Ouvir? Eu Conto», editado pela Portugália do Agostinho Fernandes.
Tenho-o agora aqui comigo, impossível lê-lo esta noite, porque vai ser mais uma madrugada de trabalho obrigatório.
«Tinham deitado um burro à margem, um burro velho. Que carga de ossos tão triste». Começa assim o primeiro conto. Sou eu!
segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008
Dias que se uniformizam

A expensas suas, em 1943, Irene Lisboa editou um livro a que chamou «Apontamentos». Consegui encontrar num alfarrabista ainda um exemplar, a capa em papel alaranjado, muito fininho para sair mais barato. Para tentar que a sua obra tivesse divulgação, esforço inglório aliás, a autora editava uns folhetos acompanhados de um cartão. «Apontamentos (...) são romance concentrados», dizia, explicando que «o seu preço são 15$00, incluindo embalagem, porte e cobrança (O mínimo que o actual custo de papel e mão-de-obra permitem».
O exemplar que agora leio, deste livro que começa «eu tenho uma mentalidade ingénua! Estou sempre disposta a ver as coisas sentimentalmente», esse exemplar dizia, para poupar o outro à usura das minhas mãos, é um dos que a Editorial Presença publicou em 1998, há vinte anos. «Um escritor não pode viver, publicar, subsistir sem a atenção e a simpatia dos seus leitores. A expansão da sua obra depende do interesse que lhe dispensa quem a lê. Querendo V. Ex.ª ter a bondade de espalhar as poucas circulares que aqui junto, contribuirá gentilmente para a difusão de "Apontamentos"», escrevia ela, a, como se doridamenete a oferecer-se para que a quisessem. Eis o que faço neste blog, por amor a esta mulher. Queiram ter pois, meus leitores, a gentileza de espalhar.
Encerrado que estou há uma semana, tal como ela «ando com o cansaço de ontem e de anteontem, de uma série de dias que se uniformizam».
domingo, 23 de Setembro de 2007
Outono havias de vir
Fui a Arruda dos Vinhos assistir a uma comovida homenagem a Irene Lisboa: Paula Morão que se doutorou sobre a autora de «Voltar atrás para quê?» e Violante Magalhães, que tem estudado a sua obra pedagógica, um documentário da RTP com Vergílio Ferreira, Alexandre O'Neill, tantos outros, amigos, fiéis, remanescentes. Cheguei a casa com a ânsia de ler o opúsculo que a edilidade a propósito editou. Li-o, num ápice, tal como escutara, uma a uma todas as palavras, esta tarde.Citando a professora Paula Morão, eis-me como se ante o «discorrer irregular e líquidode um pensar, que se organiza, como é típico da poesia, pelo ritmo ondeante da composição«.
Belas palavras estas, escritas para recordar os belos sentimentos vividos, num bom dia de domingo.
sábado, 22 de Setembro de 2007
Comemorações da Biblioteca Irene Lisboa
A Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos leva a cabo, já amanhã, domingo, as Comemorações do XVIII Aniversário da Biblioteca Municipal Irene Lisboa, Auditório Municipal - Centro Cultural do Morgado.15.00h - Leitura de textos de Irene Lisboa, pela cantora lírica Ana Ester Neves,
acompanhados à flauta por Vasco Gouveia
16.00h - Coffe Break
16.30h - Colóquio sobre Irene Lisboa com a Professora Doutora Paula Morão e
a Dra. Violante Magalhães
17.30h - Entrega dos prémios dos X Jogos Florais Irene Lisboa
18.00h - Visita à exposição sobre Irene Lisboa
sexta-feira, 24 de Agosto de 2007
Museu Irene Lisboa: um colóquio em 23 de Setembro
Há em Arruda dos Vinhos um museu dedicado a Irene Lisboa. No dia 23 de Setembro leva a cabo um colóquio e exposição sobre literatura de Irene Lisboa com a presença de: Dr.ª Violante F. Magalhães, e Professora Doutora Paula Mourão.Uma casa ao abandono

Vejo na imprensa que a casa onde nasceu Irene Lisboa está ao abandono:
«Mais de 100 anos depois de Irene Lisboa ter nascido na Quinta da Murzinheira, no concelho de Arruda dos Vinhos, o espaço, propriedade dos descendentes dos irmãos da poetisa, está agora em total abandono. Pertencendo há 100 anos à família Vieira Lisboa, a casa onde a escritora nasceu na Quinta da Murzinheira «está em ruínas desde há sete anos quando se tentou comprar», relatou, à Agência Lusa, o presidente da Junta de Freguesia de Arranhó, Joaquim Luís, referindo que o imóvel permanece «sem portas e janelas» e com as «telhas a cair».
Localizada em A-dos-Arcos, freguesia de Arranhó, a quinta, com uma extensão de 36 hectares, estende-se por terrenos agrícolas onde continua a predominar a vinha, e mantém ainda uma adega «completamente degradada», que noutros tempos era usada como apoio aos trabalhos do campo, também retratados por Lisboa nas suas obras.
Rodeada de pinheiros e eucaliptos, a casa possui um pátio onde cresce «muita vegetação selvagem», em consequência do estado de abandono a que a casa está votada.
Museu na antiga junta de freguesia
Desde há vários anos que a Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos tem vindo a estabelecer contactos com a família paterna de Irene Lisboa para comprar o espaço e «fazer ali inicialmente a casa-museu Irene Lisboa», mas «a família nunca se mostrou muito receptiva», revelou a vereadora da cultura, Gertrudes Cunha.
Todas as tentativas foram goradas e a autarquia inaugurou, no final de Junho, o Museu Irene Lisboa, em instalações antigas da Junta de Freguesia de Arranhó, reunindo pela primeira vez todo o acervo documental da vida e obra da poetisa. Mas continua a ser «um objectivo adquirir a quinta».
«O irmão de Irene Lisboa morreu há dois anos e estamos a negociar com os vários herdeiros», adiantou a autarca, explicando que a quinta está a ser alvo de partilha entre os descendentes, o que torna difícil a venda do imóvel.
O moroso processo de divisão dos bens foi confirmada por familiares da escritora, que se recusaram, no entanto, a prestar declarações.
A Quinta da Murzinheira confina com a Quinta do Monfalim, já no concelho de Sobral de Monte Agraço, também propriedade da família e cujo estado de degradação é igualmente visível.
Localizada em A-dos-Arcos, freguesia de Arranhó, a quinta, com uma extensão de 36 hectares, estende-se por terrenos agrícolas onde continua a predominar a vinha, e mantém ainda uma adega «completamente degradada», que noutros tempos era usada como apoio aos trabalhos do campo, também retratados por Lisboa nas suas obras.
Rodeada de pinheiros e eucaliptos, a casa possui um pátio onde cresce «muita vegetação selvagem», em consequência do estado de abandono a que a casa está votada.
Museu na antiga junta de freguesia
Desde há vários anos que a Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos tem vindo a estabelecer contactos com a família paterna de Irene Lisboa para comprar o espaço e «fazer ali inicialmente a casa-museu Irene Lisboa», mas «a família nunca se mostrou muito receptiva», revelou a vereadora da cultura, Gertrudes Cunha.
Todas as tentativas foram goradas e a autarquia inaugurou, no final de Junho, o Museu Irene Lisboa, em instalações antigas da Junta de Freguesia de Arranhó, reunindo pela primeira vez todo o acervo documental da vida e obra da poetisa. Mas continua a ser «um objectivo adquirir a quinta».
«O irmão de Irene Lisboa morreu há dois anos e estamos a negociar com os vários herdeiros», adiantou a autarca, explicando que a quinta está a ser alvo de partilha entre os descendentes, o que torna difícil a venda do imóvel.
O moroso processo de divisão dos bens foi confirmada por familiares da escritora, que se recusaram, no entanto, a prestar declarações.
A Quinta da Murzinheira confina com a Quinta do Monfalim, já no concelho de Sobral de Monte Agraço, também propriedade da família e cujo estado de degradação é igualmente visível.
segunda-feira, 9 de Julho de 2007
Arrebatamentos
«No convento onde fui internada aos seis anos, as coisas passavam-se de um outro modo. Lá não havia passeios nem liberdades, tudo era triste. Tanto assim que as férias me davam arrebatamentos. Foi para entrar no convento que me baptizaram. Sem filiação e com o sobrenome de ... Céu. Porque fui eu do Céu? Nunca o soube». Eis, contada no livro «Começa uma vida» a infância de Irene do Céu Vieira Lisboa. A obra é ilustrada com desenhos de Maria Keil do Amaral. Fui encontrar este, uma menina pela mão de seu pai. Ser órfão é muitas vezes ser-se feliz.
domingo, 8 de Julho de 2007
A Rua de São Bernardo
Subi a rua a pé olhando, o coração apertado, prédio a prédio, contando os números de porta. No 102 tinha morado, num quarto andar, Irene Lisboa. Temi que o prédio tivesse sido devorado pelo tempo, expulso por um daqueles favos a que hoje se chamam casas de habitação. Esperava-me o pior. O edifício estava lá e ostensiva via-se na parede frontal uma placa assinalando ali a presença passada de alguém. Aproximei-me para ver que era, enfim, a homenagem dos moradores, carinhosos, à lembrança amiga de ali ter morado...o ministro Baltazar Rebelo de Sousa.
Quanto a ter ali habitado a autora de «Solidão», nem uma palavra de memória.
Lembrei-me, ao regressar a casa, neste domingo em que um vento cruel resolveu tresmalhar a cidade de tristeza angustiosa, das palavras com que ela abre o seu livro «Começa uma vida», que assinou como João Falco e que é, afinal, o relato dos primórdios da sua existência: «Vá-se embora daqui, esta casa não é sua!».
De facto não era, nem a casa nem a vida que assim a tratou.
domingo, 1 de Julho de 2007
Mulheres escritoras
Sobre Irene Lisboa escreveu Maria Ondina Braga, outra mulher escritora a quem dedico um blog, esta frase triste: «Há menos de duas décadas, todavia, esta cidade que ela tanto celebrou, este povo de quem foi um dos mais finos e fiéis cronistas, viram-na morrer com a mesma indiferença com que a tinham visto viver». A autora de «Angústia em Pequim» sabia o que era o amargo da solidão, a ânsia de ser-se amado.O livro chama-se «Mulheres Escritoras», foi editado em 1980. O meu exemplar, comprado numa modesta livraria de obras em segunda mão, foi oferecido no Natal de 1981 pela tia Maria Antonieta à Guida «com um abraço apertado». Dói que tudo termine assim, entre o adelo e o esquecimento.
O comum existir
A cada uma das paixões um blog, onde escrevo o que bem poderiam ser cartas de amor. Amor literário, mas amor em qualquer caso, aquela devoção de leitor apaixonado.
De há muito que fui reunindo, um a um, os livros da Irene Lisboa. Alguns já em alfarrabista, em mau estado, daqueles que se não encontram.
Hoje, ao ler «Esta Cidade», um livro que ela escreveu em 1942, decidi-me a reservar-lhe este espaço.Irene do Céu Vieira Lisboa nasceu em 1892, faleceu em 1958. Usou o tempo de vida, a trabalhar como professora e a escrever sob o seu nome, como Manuel Soares, João Falco e Maria Moira uma obra hoje quase esquecida.
A sua obra essencial é esta:
* Treze contarelos (publicada em 1926).
* Um Dia e Outro Dia... _ Diário de Uma Mulher (poesia) (sob pseudónimo João Falco) (publicada em 1936).
* Outono Havia de Vir (poesia) (sob pseudónimo João Falco) (publicada em 1937).
* Solidão: Notas do Punho de Uma Mulher (poesia) (sob pseudónimo João Falco) (publicada em 1939).
* Fôlhas Volantes (poesia) (sob pseudónimo João Falco) (publicada em 1940)
* Esta Cidade! (contos, Irene Lisboa [João Falco], (publicada em 1942).
* Apontamentos (publicada em 1943).
* Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma (contos) (publicada em 1955).
* Voltar Atrás para Quê? (novela) (publicada em 1956).
*O Pouco e o Muito. (1956)
* Título Qualquer Serve (novela) (publicada em 1958).
* Queres ouvir? Eu Conto _ Histórias para Maiores e mais Pequeninos (publicada em 1958).
* Crónicas da Serra (publicada em 1958).
* Solidão II (prosa) (publicada em 1966).
* Versos Amargos (publicada em 1991).
É uma literatura do comum existir, uma escrita de uma extraordinária existência.
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